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Fiador no crédito habitação: responsabilidades, riscos e alternativas

23 de outubro de 2026
Fiador no crédito habitação: responsabilidades, riscos e alternativas

No crédito habitação, o fiador é a pessoa que se compromete a pagar o empréstimo se o titular deixar de o fazer. O banco pede um fiador quando acha que a hipoteca e os rendimentos de quem compra não chegam para cobrir o risco. Para quem compra, um fiador pode decidir se o crédito é aprovado. Para quem aceita sê-lo, é um compromisso que pode durar 30 ou 40 anos e chegar ao seu próprio património. Este guia explica as duas posições: quando o banco exige fiador, que responsabilidade assume quem assina, como se protege e que alternativas pode explorar antes de pedir a alguém que dê a cara pela sua casa.

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Em resumo

  • A fiança é uma garantia pessoal: o fiador responde com o seu património pela dívida do titular, além da hipoteca sobre a casa.
  • Os bancos pedem fiador sobretudo quando a taxa de esforço é alta, a entrada é baixa ou os rendimentos são instáveis.
  • Na maioria dos contratos, o fiador renuncia ao benefício da excussão prévia. Nesse caso, o banco pode cobrar-lhe diretamente, sem esgotar primeiro os bens do devedor.
  • Ser fiador fica registado na Central de Responsabilidades de Crédito e pode limitar os seus próprios créditos. Só deixa de o ser se o banco aceitar.
  • Há alternativas: dar uma entrada maior, recorrer à garantia pública para jovens até 35 anos, juntar um segundo titular ou rever o montante e o prazo do empréstimo.

Índice

O que significa ser fiador num crédito à habitação

Num crédito habitação em Portugal, a garantia principal é quase sempre a hipoteca sobre o imóvel que está a comprar. A fiança soma-se a ela. Segundo o Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal, a hipoteca é uma garantia real sobre o imóvel. A fiança é uma garantia pessoal: uma terceira pessoa obriga-se a pagar a dívida se o devedor principal não pagar.

A diferença é grande. A hipoteca diz respeito a um bem concreto, a casa. A fiança diz respeito a uma pessoa e a tudo o que ela tem: salário, poupanças, outros imóveis e, em certos casos, a própria habitação.

Um ponto que muitos fiadores só descobrem tarde: o fiador não tem direito nenhum sobre a casa. Se for chamado a pagar, paga uma dívida de um imóvel que continua a ser de outra pessoa. Ganha apenas o direito de exigir esse dinheiro ao devedor. É por isso que a decisão de ser fiador deve ser tomada com a cabeça, mesmo quando o pedido vem de um filho, de um irmão ou de um amigo próximo.

O que significa ser fiador num crédito à habitação — overview diagram

Quando é que os bancos pedem fiador

Não há uma lista legal de casos em que o fiador é obrigatório. Cada banco avalia o risco do pedido e pode condicionar a aprovação a uma garantia adicional. Na prática, o pedido de fiador surge sobretudo nestas situações:

  • Entrada baixa ou financiamento muito elevado. Quanto maior a percentagem do valor da casa que o banco financia, menos margem tem a hipoteca para cobrir uma eventual perda.
  • Taxa de esforço no limite. Se a prestação pesa muito no rendimento líquido do agregado, o banco procura outra pessoa que possa responder.
  • Rendimentos instáveis ou recentes. Contratos a termo, período experimental, trabalho independente há pouco tempo ou rendimentos variáveis.
  • Idade e prazo. Um prazo que termina perto ou depois da idade da reforma pode levar o banco a pedir reforço de garantias.
  • Histórico de crédito frágil. Incidentes passados ou muitas responsabilidades em curso na Central de Responsabilidades de Crédito.

Se ainda está a preparar a compra, vale a pena saber cedo se o seu perfil vai exigir fiador. Um processo de pré-aprovação de crédito habitação mostra-lhe isso antes de fazer uma proposta por um imóvel, e não depois.

Quem pode ser fiador

A lei não diz quem pode ser fiador. Na prática, são quase sempre pais, outros familiares ou pessoas muito próximas. Mas o banco não aceita qualquer pessoa: analisa o fiador quase como analisaria um titular.

O banco costuma olhar para:

  1. Rendimentos estáveis e comprováveis, com recibos de vencimento, declaração de IRS e extratos.
  2. Património, sobretudo imóveis sem hipoteca ou com pouca dívida.
  3. Responsabilidades em curso, porque um fiador que já tem créditos ou outras fianças vale menos como garantia.
  4. Idade, em comparação com o prazo do empréstimo.
  5. Relação com o devedor, que ajuda a perceber o contexto da operação.

O banco pode aceitar ou recusar um fiador conforme o risco que essa pessoa representa. Pode também pedir mais do que um. Por isso, antes de pedir a alguém que seja seu fiador, confirme com o banco ou com o seu intermediário de crédito se esse perfil tem hipóteses de ser aceite.

A responsabilidade do fiador, na prática

Quem pesquisa "responsabilidade do fiador" quer saber, no fundo, até onde pode ir o banco. A resposta depende sobretudo de uma cláusula do contrato.

Benefício da excussão prévia: a cláusula que muda tudo

O Código Civil dá ao fiador o chamado benefício da excussão prévia. Quer dizer que o fiador pode recusar pagar enquanto o banco não tiver executado todos os bens do devedor principal, incluindo a casa hipotecada. Como explica o Banco de Portugal, com este benefício o fiador só é chamado depois de esgotado o património do devedor.

Os contratos de crédito habitação incluem quase sempre uma cláusula de renúncia a este benefício. Se a assinar, o banco pode exigir-lhe o pagamento logo que haja incumprimento, sem ter de esperar pela venda da casa ou pela penhora dos bens de quem comprou. O banco pode avançar diretamente sobre os seus rendimentos e bens.

Com benefício da excussão préviaCom renúncia ao benefício
Quando o banco pode cobrar ao fiadorDepois de executar todos os bens do devedorLogo após o incumprimento
Ordem da cobrançaDevedor primeiro, fiador depoisO banco escolhe a quem cobra
Risco para o património do fiadorMais tardio e, muitas vezes, menorImediato e até ao valor total em dívida
Frequência nos contratos de crédito habitaçãoPouco comumA regra na maioria dos bancos

Antes de assinar, peça a minuta do contrato e procure a palavra "renúncia". Se não perceber o que lá está, fale com um advogado ou solicitador antes da escritura, não depois.

Na prática, é quase um codevedor

Com a renúncia, o fiador fica numa posição muito próxima da de um codevedor. Responde pelas prestações em atraso, pelos juros de mora e pelas despesas de cobrança previstas no contrato. Pode responder pelo capital todo se o banco declarar o vencimento antecipado do empréstimo.

Se o fiador pagar, fica com os direitos que o banco tinha sobre o devedor (é a sub-rogação). Ou seja, passa a poder exigir ao devedor tudo o que pagou. O problema é prático: se o devedor deixou de pagar ao banco, é pouco provável que tenha dinheiro para reembolsar o fiador. O direito existe, mas recuperar o dinheiro costuma ser lento e difícil.

O impacto no seu próprio crédito

Mesmo que tudo corra bem e o devedor pague sempre a horas, a fiança aparece no seu nome. As instituições comunicam à Central de Responsabilidades de Crédito os intervenientes em cada contrato, incluindo os fiadores, conforme a Instrução n.º 17/2018 do Banco de Portugal. Quando pedir um crédito para si, seja para casa, carro ou empresa, o banco vai ver essa responsabilidade e contá-la na avaliação da sua solvabilidade. Ser fiador hoje pode reduzir quanto lhe emprestam amanhã.

Os direitos que o fiador mantém

Ser fiador não o deixa sem proteção. O Banco de Portugal resume, num guia sobre o que deve saber antes de ser fiador, os pontos principais. Entre eles estão o direito a receber informação sobre o contrato que garante e a ser avisado quando há incumprimento do devedor. Use esses direitos: um fiador que sabe cedo de um atraso tem mais hipóteses de o resolver antes de a dívida crescer.

Posso deixar de ser fiador?

É uma das perguntas mais frequentes, sobretudo depois de um divórcio, de uma zanga familiar ou quando o fiador quer pedir crédito para si. A resposta curta: não por vontade própria.

A fiança faz parte do contrato com o banco. Para o fiador sair, o banco tem de aceitar. Segundo o Portal do Cliente Bancário, isso costuma exigir que o devedor apresente outra garantia ou outro fiador que o banco considere igualmente sólido. Se o devedor tiver entretanto ficado em pior situação financeira, essa substituição é difícil.

Há situações em que a saída se torna mais realista:

  • O capital em dívida baixou muito e a casa vale claramente mais do que o empréstimo. A hipoteca sozinha pode chegar ao banco.
  • Os rendimentos do titular subiram e a taxa de esforço é hoje confortável.
  • Transferência do crédito para outro banco, com nova avaliação e condições que não exijam fiador.
  • Venda do imóvel. O empréstimo é liquidado com o valor da venda e a fiança extingue-se. O nosso guia sobre vender casa com hipoteca explica os passos.

Em qualquer dos casos, o pedido é feito por escrito ao banco e a libertação deve ficar também por escrito. Um acordo de palavra com o gestor de conta não chega.

Antes de assinar como fiador: sete passos

Se lhe pediram que fosse fiador, faça este percurso antes de ir ao banco:

  1. Peça a Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE) e a minuta do contrato. Confirme o montante, o prazo, a taxa e a prestação.
  2. Procure a cláusula de renúncia ao benefício da excussão prévia e perceba o que ela implica para si.
  3. Faça as contas como se a dívida fosse sua. Conseguiria pagar a prestação durante seis meses ou um ano sem pôr em risco a sua casa e as suas despesas?
  4. Conheça a situação financeira de quem pede: estabilidade no emprego, outras dívidas, poupanças de reserva.
  5. Pense na sua própria vida a 10 ou 20 anos: vai querer crédito para si, ajudar outro filho, reformar-se?
  6. Combine regras com o devedor: avisar logo de qualquer dificuldade, partilhar comprovativos de pagamento, ter um seguro de vida associado ao crédito.
  7. Peça aconselhamento jurídico se o contrato tiver cláusulas que não entenda ou se o seu património for significativo.

Se a resposta ao passo 3 for "não", leve isso a sério. Recusar ser fiador não é uma falta de confiança. Muitas vezes é a decisão mais responsável para as duas famílias.

Alternativas ao fiador no crédito habitação

Antes de pedir a alguém que se comprometa por si, veja se o banco aceita outro caminho.

Garantia pública para jovens até 35 anos

O Decreto-Lei n.º 44/2024 criou uma garantia pessoal do Estado para jovens que compram a primeira habitação própria e permanente. Na prática, o Estado faz um papel parecido com o de um fiador: garante até 15% do capital a jovens até aos 35 anos, o que permite chegar a financiamentos muito próximos do valor total da casa sem envolver a família. Há limites de preço do imóvel e de rendimento e nem todos os bancos aplicam a medida da mesma forma. Explicamos as regras no guia de crédito habitação jovem.

Entrada maior

Quanto mais capital próprio puser na compra, menor o risco para o banco e menos provável o pedido de fiador. Lembre-se de que, além da entrada, precisa de dinheiro para impostos, escritura e registos. Veja quanto deve reservar no nosso artigo sobre os custos de comprar casa em Portugal.

Segundo titular

Juntar um segundo titular, como um cônjuge ou companheiro, soma rendimentos e baixa a taxa de esforço. A diferença em relação ao fiador é que o segundo titular é também dono da casa e devedor desde o primeiro dia.

Hipoteca sobre outro imóvel

Em alguns casos, um familiar pode oferecer uma hipoteca sobre um imóvel seu, em vez de uma fiança. Assim, o risco fica limitado a esse bem e não chega a todo o património. Nem todos os bancos aceitam e a solução tem custos de registo, mas vale a pena perguntar.

Rever o montante, o prazo ou o imóvel

Por vezes, o problema não é o comprador, é a operação. Um imóvel um pouco mais barato, uma zona diferente ou um prazo ajustado podem tornar o crédito aprovável sem garantias adicionais. Comparar propostas de vários bancos também ajuda: os critérios mudam de instituição para instituição.

Se o devedor deixar de pagar: o que fazer

Se souber de um atraso, aja logo. Os juros de mora e as despesas de cobrança vão aumentando a dívida, e a margem de negociação diminui.

  • Fale com o devedor e com o banco o mais cedo possível. Um atraso de uma ou duas prestações resolve-se muito mais facilmente do que um processo em tribunal.
  • Peça informação por escrito sobre o valor em dívida e as opções disponíveis.
  • Explore soluções de regularização: renegociação do prazo, período de carência ou consolidação. Os bancos têm procedimentos próprios para situações de incumprimento e o fiador deve ser informado.
  • Pondere a venda do imóvel antes de uma execução. Uma venda feita a tempo costuma conseguir um preço melhor do que uma venda judicial e pode liquidar a dívida sem chegar ao fiador.
  • Procure apoio jurídico se receber uma notificação de execução ou de penhora. Há prazos para reagir.

A perspetiva da Golden Line

Acompanhamos compradores e proprietários em Oeiras, Cascais, Sintra, Lisboa e no Alentejo há mais de duas décadas. A fiança aparece com frequência nos processos de crédito que seguimos. O que vemos repete-se: o pedido de fiador chega muitas vezes tarde, já com a proposta aceite e o prazo para a escritura a correr. Nessa altura, pais e familiares assinam com pressa, sem lerem a cláusula de renúncia nem pensarem no que ela significa para o seu próprio futuro.

A perspetiva da Golden Line — overview diagram

Por isso defendemos que se fale de garantias no início, não no fim. Antes de visitar casas, o comprador deve saber quanto pode pedir, se o seu perfil vai obrigar a fiador e que alternativas tem, incluindo a garantia pública para quem tem até 35 anos. Quando o fiador é mesmo necessário, deve ir ao banco a saber exatamente o que assina, com as contas feitas e as regras combinadas com quem compra.

A nossa experiência mostra que uma fiança bem pensada pode ajudar uma família a comprar casa sem a pôr em risco. Uma fiança assinada à pressa é das decisões financeiras mais difíceis de desfazer.

— Sónia Godinho

Crédito habitação com acompanhamento do início ao fim

Se está a preparar a compra de casa e quer saber se vai precisar de fiador, a MaxFinance Golden Line analisa o seu perfil, compara soluções de crédito habitação e ajuda-o a montar o processo com as garantias certas. Também tratamos da renegociação de créditos que já tem, um caminho possível para quem quer libertar um fiador. Para rever contratos e minutas antes de assinar, o nosso serviço jurídico e processual acompanha cada fase da transação.

Perguntas frequentes

O fiador fica com algum direito sobre a casa?

Não. O fiador garante a dívida, mas não passa a ser dono do imóvel. Se pagar, ganha o direito de exigir ao devedor o que pagou, mas a casa continua a pertencer ao titular do crédito, ou a quem a comprar numa venda.

O banco pode penhorar a casa do fiador?

Pode, se o devedor falhar e o fiador não pagar o que lhe é exigido. Com a renúncia ao benefício da excussão prévia, o banco nem precisa de executar primeiro os bens do devedor. Os rendimentos e o património do fiador, incluindo a habitação, podem ser alvo de penhora, dentro dos limites que a lei fixa.

A responsabilidade do fiador passa para os herdeiros?

Em regra, as dívidas da fiança fazem parte da herança e os herdeiros respondem por elas até ao valor dos bens herdados, não com o seu património pessoal. Cada caso tem particularidades, sobretudo quando há partilhas ou repúdio da herança, por isso convém falar com um advogado antes de aceitar.

Posso ser fiador e pedir crédito para mim?

Pode, mas a fiança conta na avaliação do banco. Como fica registada na Central de Responsabilidades de Crédito, o banco vê essa responsabilidade potencial e pode aprovar um valor menor ou exigir mais garantias. Tenha isto em conta se pensa comprar casa ou investir nos próximos anos.

Fontes

Recomendações